Um poema de Sylvia Beirute - Conoscenza
CONOSCENZA
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semântica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.
inédito
Também postado [aqui]
Publicado por Texto-Al at 6.12.09 0 comments
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Carlos Campaniço lança o romance "A Ilha das Duas Primaveras"
Publicado por Texto-Al at 4.12.09 1 comments
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Fugidios
Os dedos fogem-me do teclado,
Chamam-me ridícula,
Atrapalham-se trôpegos na tarefa de chegar a ti.
Os dedos outrora inertes,
Agora vivos, agora meus,
Nossos.
De toda a gente.
Os dedos que não escrevem,
Mas é como se escrevessem.
Os dedos que não amam,
Mas são sempre tão naturais como quem ama.
Os dedos gastos de mentiras e cinismos profundos,
Os dedos fartos de sorrisos de plástico e corações de esferovite,
Os dedos a dizer,
- Gosto de ti.
Estes mesmos dedos que quiseram ligar-te agora mesmo para dizer:
- Tenho saudades tuas.
(Os dedos ridículos da segunda frase).
Isa Mestre
Publicado por Isa Mestre at 2.12.09 1 comments
Categorias: Isa Mestre; Poesia
Um poema de José Emilio Pacheco: Memória
MEMÓRIA
não leves muito a peito
o que diz a memória.
possivelmente não a houve esta tarde.
talvez tudo seja um auto-engano.
a grande paixão
somente existiu no teu desejo.
quem te disse que não te estaria contando ficções
para alargar o prorrogar do fim
e sugerir que tudo isto, tudo isto
teve ao menos um sentido.
Publicado por Texto-Al at 1.12.09 2 comments
Categorias: poema
Um poema de Sylvia Beirute - Desejo Infinitesimal
DESEJO INFINITESIMAL
{que horas eram quando o tempo acabou?}
{que horas eram quando deixaste de
poder reproduzir clandestinamente a explicação
da conclusão do desejo infinitesimal?}
{que horas eram quando a razão de espírito
substituiu a de ciência na ocupação do abraço?}
{que horas eram quando te adiantaste à felicidade
no dia que dilui
na percepção multiforme da multidão?}
{que horas eram quando a boca simulou
o silêncio com princípios aleatórios?}
{que horas eram quando deixaste que a alma
somasse corpos e subtraísse outros?}
{que horas eram quando viver era deixar morrer
e a solidão incomunicável?}
{que horas eram quando o tempo acabou?
que horas eram?}
inédito
Publicado por Texto-Al at 26.11.09 3 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Trinta do seis
Tenho saudades tuas.
As frases de três palavras são quase sempre as mais difíceis de dizer. Como se ficassem presas na garganta, como se o coração, de repente, fosse apenas uma rua. Não uma estrada, como tantas vezes pensáramos. Uma rua. Sim. Uma rua.
Uma rua onde nem sempre cabem todas as tuas dúvidas somadas aos meus medos, divididas pelas nossas ansiedades, elevadas à nossa hipocrisia ao quadrado.
Não me recordo da tua voz. É talvez o que mais me dói.
Lembro o teu beijo, o teu cheiro, os teus braços fortes a acolher-me os medos, a acalmar-me as ansiedades. Mas a tua voz…a tua voz não. E depois o medo. A recordação. Sim, é exactamente isso. A recordação. Aquela noite repetida na minha memória, aquela noite tantas e tantas vezes. A camisola vermelha, as mãos trémulas e a minha boca a querer dizer-te,
- Adoro-te,
E o coração a chamar-me ridícula. O coração de uma rua. O coração, esse bicho de um só sentido.
Depois, o corpo assustado, hesitante, o olhar nervoso. As mãos a dizer,
- fica.
E tu a partir. Tu a partir sem que me deixasses sequer dizer-te adeus.
As minhas mãos,
fica,
E tu a deixares-te ir pouco a pouco, a levares um pouco de mim. Minto. A levares tudo de mim.
E o médico,
- Fizemos tudo o que podíamos.
E eu a saber que nós nunca podemos nada. Que nós nunca somos nada.
Eu a saber que as palavras são apenas palavras. E que as que não te disse são exactamente iguais aquelas que todos deixamos por dizer.
E o meu olhar, e o meu medo. E todas as coisas que sendo minhas, naquele dia deixaram de me pertencer.
E a tua voz já perdida no tempo,
- a miúda tem jeito para a coisa.
E é por ti. É por ti que estou aqui. É por ti que nasço e morro todos os dias na folha de papel. É por ti que escrevo e são para ti todas as palavras que um dia nunca soube ou pude dizer-te. É para ti o que ainda resta depois da partida.
Isa Mestre
Publicado por Isa Mestre at 25.11.09 1 comments
Categorias: Isa Mestre; Prosa
Exercício de memória depois da queda
Quando nos vamos embora,
descemos pelas margens da água
e sorvemos o céu molhado com palhinhas.
A nata que desce dos rios connosco
tem o branco diamantino
das pérolas oceânicas.
As sereias nadam entre sinapses
[ouvem-se os aplausos]
Quando saímos da cena
O pano cai
(pano, caí!
o pano assiste à vida toda e só cai)
e somos bastidores
a melancolia do terceiro acto,
a vida em espelhos de maquilhagem, lágrimas privadas
que correm e abrem afluentes
Ramais.
E nós caímos,
O pano cai e caímos
como planetas presos às paredes de um quarto de um miúdo
como os planetas são tão pequenos aí! O universo num quarto.
E os rios seguem-nos,
E o branco, a nata, as sereias caem,
O mundo cai quando caímos.
Adriano Narciso
Publicado por Adriano Narciso at 25.11.09 2 comments
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Os monólogos insurrectos - XV
Não te levantes do que escrevo. Às vezes basta um lugar aprendido no escuro como forma de enlouquecer até à exaustão. Um lugar incurável, muito morto, habituado a estar onde és. Um esmero maiúsculo, se assim o quisermos. Poucas vezes. Uma doença à procura de casa. Onde se fica em flor (ou vertigem), ou em atalho para ser escombro.
Julgo ser eu, só. O rosto recalcado ao mínimo revólver. Coleccionando balas alojadas nos lábios de onde cais em erosão genital. Fabulosamente falecida de memórias e de corpos; outrora a graciosa implosão de nomes.
Trouxe metade dos teus demónios. Uma dor muito forte, abastecida de vultos e distúrbios afectivos, de tal modo inseparáveis que por cada órfão cresce um fóssil para longe. Fizeram-te íntima de homens doentes. Nómada cardíaca. Recolhendo estranhos durante o sono e concedendo-lhes uma floresta de lares. Tão depressa envelhecendo para cônjuge para que ninguém te reconheça o fundo da diuturna deficiência dos anjos.
Ajoelha-te quando chegares ao fim. A tua boca é um covil de línguas nas embocaduras dos falos. Matriarca dos bálanos cheios de água, minimamente venosos, coando a idade dos aromas (e do desmembramento). Engole-me com o teu ânus permanente, vertiginoso por dentro (onde passei a última depressão). Um sítio onde sejamos a fundação de um desastre, de noite e de novo, pela força de um desfecho arável: o ofício de terminar pessoas em fluidos. Um armazém de gente viável e glandes e vulvas e rectos. Fezes. Criaturas anseriformes rasgando à escuta.
Entraste em defunto. Deus quis-te (f)ilha de um beijo negro, espectro por baixo, esquartejada pela fetal tessitura dos alísios. A lavoura dos ventos, como animalidade tácita, onde acabaríamos por tremer de escrita. Assim é o metabolismo dos casais. Um diagnóstico anódino, talvez, em socorro da pontuação que te veio acabar.
Li todos os livros onde poderia abandonar-te. Dupliquei de medo por tamanhos abismos e deixei-me comover. Masturbei-me à janela do teu retrato, onde carregas o esquife paradisíaco de uma criança improvisada.
Vim-me na tua consciência.
Publicado por Duarte Temtem at 24.11.09 0 comments
Pragmática do Silêncio
[Para ti, que existes nos meus vazios. tantas e tantas vezes.]
Para escrever-te não preciso de quase nada.
Basta-me entender que és essencialmente o vazio.
Entender que, tal como as casas,
Também nós nos vamos construindo.
E os tijolos pesados, tantas vezes.
Os tijolos a ferir-nos as mãos,
Os tijolos a cair nos pés como grilhetas,
Os tijolos como palavras atiradas para o meio do caminho,
Os tijolos. Pesados.
Como as palavras.
Tantas vezes dispensáveis, tantas vezes inúteis.
Como quando apareceste.
As palavras a fugir-me por entre os dedos das mãos,
A deambular na inocência de um olhar que se perde, que se perde sempre.
E da vida, ficam apenas os vazios.
Os espaços onde nenhuma palavra consegue entrar.
Os espaço onde nenhuma palavra poderia entrar.
- Mesmo que quisesse?
- Mesmo que quisesse.
Isa Mestre
Publicado por Isa Mestre at 18.11.09 1 comments
Um poema de Sylvia Beirute - Exercícios Para os Olhos
EXERCÍCIOS PARA OS OLHOS
quem manda aqui é a biologia,
mas o sentimento incontrolável é aquele que se masturba.
eu apenas comecei o palco, síntese da arte, um
contra}actor contra o corpo.
cada corpo tem um deus, a sua estrutura de exibição
não encontra muita importância no texto inevitável.
{quem escreveu este texto? quem escreveu este texto
sem seios, ânus ou um pudor que os cubra?}
a estética de tal esconderijo, vejamos, é, eu diria, circunstancial,
circunstancial, aliás,como o esconderijo dos
olhos circuncidados do público atento aos
actores que tapam os espaços mas sobretudo aos
que tapam os tempos com os es}paços de partes
inexibidas e por isso, imaginadamente, universais.
{a lágrima final é uma morte fetal}, poderia {eu} per-
feitamente dizer nesta fala depois de uma deixa redundante,
mas fugiria ao texto e nunca devemos fugir ao texto, a menos
que tenhamos um outro. { } mas, de repente penso: {se tivesse
um bisturi e me matasse, quem duvidaria
de que tal não viesse no texto?}
inédito
Publicado por Texto-Al at 18.11.09 0 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Os campos parecem mais vívidos quando nos vamos embora
{para a Sara,
porque os comboios acabam por parar onde queremos}
Os comboios andam sempre,
mas vagarosos,-
ténues como fumo de crematório,
fugazes-
quando há saudade.
Porque,
a saudade interfere como meteorito
na mecânica.
Oxida,
tolda-nos o pensamento como vendas nos olhos.
Toda a ciência,
sobretudo a Física,
devia estudar os efeitos da saudade.
Devia analisar a saudade como analisa átomos
(que são tudo, um espaço de matéria) porque
a saudade interfere na própria concepção do átomo.
(Um comboio que chega a horas atrasa-se,
quando há saudade);
Os comboios param sempre (a horas, atrasados ou descarrilados)
vivem na obrigação marcial do tempo e da Física –
chegam-nos, vemo-los.
A saudade anda sempre em nós, nunca chega e está lá,
É o tempo, a obrigação marcial do tempo.
Adriano Narciso
Publicado por Adriano Narciso at 13.11.09 6 comments
Categorias: adriano narciso, poema
Correspondência - um poema de Sylvia Beirute
CORRESPONDÊNCIA
para dizer {intemporal} digo {o infinito do tempo} ,
para dizer que {existe espaço} digo {vazio} ,
para dizer {passado} digo {o esqueleto do presente} ou
uso a sinédoque, estranhamente
mais exacta e rigorosa, {os seus ossos frágeis} ,
para dizer {cegueira} digo {a mera visão interior
com passos de tigre ao escuro} ,
para dizer {sacar verdades} digo {emitir um
certificado de existência poética}
para dizer que {sou} digo que {estou, ou estou por vezes},
para sentir {o anonimato contemporâneo dos outros poetas
que no jardim da alagoa passeiam os cães e fingem
não me ver} faço {assim com os ombros}.
para permanecer preciso de {usar as mãos}
e {estender todo o corpo nos lábios, ou entre sinónimos
e correspondências}.
Publicado por Texto-Al at 10.11.09 3 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Apresentação do livro Tamujal, de Ivo Machado, e considerações sobre o Prémio Literário António Ramos Rosa
Publicado por Texto-Al at 5.11.09 3 comments
Categorias: diversos
Um poema de Sylvia Beirute - Premissa de Tempo
PREMISSA DE TEMPO
começo onde acabas, ou onde estás quase a terminar, ou ainda
onde já acabaste mas tens uma palavra a dizer.
começo onde acabas e acabo onde acabas ou numa
das outras hipóteses. } sou exígua e o meu tamanho
varia consoante as tuas premissas de tempo.
neste lugar a respiração é imaginada e assim queimada
pelo sol, o meu corpo assim apaziguado ouve uma
sombra exaustiva e perpétua como o outono caótico
dentro de um sonho infinito. um dia, quando atingirmos
o ponto zero, começaremos de novo a existir, sem que ninguém
comece ou acabe onde o outro comece ou acabe,
e, sobretudo, sem que haja palavras que falem.
inédito
Publicado por Texto-Al at 4.11.09 2 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Semana dos Açores na Biblioteca António Ramos Rosa (Faro)
Publicado por Texto-Al at 3.11.09 0 comments
Categorias: divulgação
Ilusões Conclusivas - um poema de Sylvia Beirute
do jardim da alagoa até à praia" é
afinal a sinédoque de um passado que
sonho que recua. }
entrará num autocarro
conclusivas}, e, assim que chegar à praia, fá-lo-á
aí, a sua forma interior, tão escura quanto
a inconsciência miúda de um grito passivo,
assemelhar-se-á, tanto quanto possível e ressalvando
diferenças formais que só à Poesia dizem respeito,
ao seu conteúdo prévio.
Publicado por Texto-Al at 1.11.09 3 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Esclarecimento número um, um poema de Isa Mestre
Pergunto-te:
Quem são eles?
E os teus olhos vidrados, perdidos, às vezes baços.
Algumas vezes falo-te de amor,
Outras de medo.
Perguntaste-me um dia se eram sinónimos,
E eu na minha linguística de desordem não soube que dizer-te.
Escrevo-te para esclarecer-te,
Para esclarecer-me.
Antes de ti, eu pensava que amor era apenas o amor,
A palavra,
O sentido que nos ensinam na escola e que demoramos toda uma vida a entender,
Depois, entendi que o amor eram todas as coisas,
que o amor era perder-me de tudo e encontrar-me apenas em ti,
perder-me do que sou e vir até aqui simplesmente para dizer-te :
Sim, o amor é também o medo.
O amor é sobretudo o medo.
Isa Mestre
Publicado por Isa Mestre at 29.10.09 3 comments
Categorias: Isa Mestre; Poesia
Página em Branco - um poema de Sylvia Beirute
PÁGINA EM BRANCO
{poema-resposta a um autor bloqueado}
saber existir uma página em branco,
e que a mesma já contém poesia,
é absolutamente necessário para se escrever
um poema.
escrever pode ser pura abstenção,
e o ponto supremo de se escrever bem pode ser,
e segundo a minha viciada experiência,
uma abstenção parcial.
{mas cuidado,
muito cuidado com as formigas que passam sobre a folha.}
inédito
Publicado por Texto-Al at 28.10.09 2 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Definições - um poema de Sylvia Beirute
DEFINIÇÕES
{então que é verdade que a definição se esgota no rosto
que é o seu rasto} e quanto maior o rasto, maior a /probabilidade/
de se esgotar, em maior número as escolhas {e dentro delas
as pessoas,} as pessoas que mudam, que ainda não sabem,
diferenciam, prescindem, imprescindem}. {eu} realmente
gostaria de dizer algo agora, {mas os dias são transfusões de dias},
de plasmar definições e, dentro delas, significados profundos, ousar
escrever as palavras {completidão} e {perfeitude}, tocar
no fulgor abstracto das histórias futuras, das radiações de um
abraço nas repetições tumefactas da espessa mudez, reconhecer
a transversalidade de todo o tempo. {e então que este princípio
de poema me diz que devo parar aqui, aqui onde um rasto não
começa, onde um significado não acaba, todas as definições estão
ainda encarceradas no seu primeiro infinito, onde uma bruma passa
no exacto momento em que os corpos abrem.}
inédito
Publicado por Texto-Al at 28.10.09 1 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Última Chamada
Publicado por Texto-Al at 23.10.09 0 comments
Categorias: divulgação
Poema de aquecimento para uma longa noite de prosa - um poema de Sylvia Beirute
POEMA DE AQUECIMENTO PARA UMA LONGA NOITE DE PROSA
{a primeira hipótese é entre duas pessoas, tu e eu, haver um intervalo, e ser esse intervalo a única coisa que nos define, crescerem estradas que não começam, despir-se o tímpano de igualdades, ter-se perdido o efeito inverso do cansaço, sermos nós sem uma raiz.}
{a outra hipótese é instaurarem-me um processo poético, tablado de improvisos, irmos a vénus num ovni, por ser a minha consensualidade um rebanho de qualidades, e na tua perspectiva de poeta ser o céu uma folha de papel branca, a claridade esconder a escuridão, e estabelecer-se uma insaciabilidade do impossível.}
inédito
Publicado por Texto-Al at 23.10.09 1 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
O Princípio da Distância - um poema de Tiago Nené
O PRINCÍPIO DA DISTÂNCIA
[a Sylvia Beirute]
poesia é a arte, metafísica, de escavar as palavras
e encontrar outras palavras
e escavar estas palavras e encontrar outras
palavras.
foi assim que escrevi o teu corpo
e escavando as suas palavras encontrei outras
palavras
que diziam ser a outra metade da solidão a esperança
e os nossos corpos
o princípio da distância.
inédito
Publicado por Texto-Al at 19.10.09 4 comments
Categorias: poema, tiago nené
Um poema de Sylvia Beirute - Passageiro Frequente
PASSAGEIRO FREQUENTE
a vida precisa de justificar o sonho belo }
os sentidos são transmissíveis,
e apenas na simulação directa a estética é exterior.
quem quiser dobrar ao meio uma subtileza }
encontra uma sombra muito rígida,
um passageiro frequente no infinito de um nome }
regando esta abundância tão rente
com o caule desde a dialéctica do poema sem seios
ao instinto que respira pela aura dos pulmões,
{respiração que blinda a aura da alma azul-índigo}
inédito
Publicado por Texto-Al at 17.10.09 0 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Sortilégio de Silêncio, novo livro de Santiago Landero, apresentado em Faro
Publicado por Texto-Al at 16.10.09 0 comments
Categorias: divulgação
Um poema de Sylvia Beirute - Paisagem
PAISAGEM
de desabrochamentos mutuamente interceptados:
a repercussão deste abraço não é tão intensa como
espremer uma laranja até à última gota, assim como
um beijo apenas despede um rosto de uma boca
ou uma boca de outra boca.
{bebo as cápsulas do tempo, o perfume está morno,
e estas palavras nascem da rouquidão do silêncio,
os olhos chicoteiam paisagens pálidas
e aqui discutimos como confiar no instinto
do que acabámos de inventar.
voz baixa: {e espreitando pela mentira vejo a verdade:
os lugares existem repetidamente
e consultam os mapas actualizados antes de acontecerem
uma e outra vez.}
voz alta (de novo, como principiou o poema):
{os poemas não são livres enquanto as suas palavras
o não forem.}
FALTAREI AO POEMA
A INDIVIDUALIDADE NUNCA É AUTÓNOMA
e tu podes, na mesma, escrever um poema, (é claro),
voz baixa de novo: {cuidado porque há mulheres dentro
de acepções ambíguas, e o sítio justo do significado
está-lhes na coxas escaladas
com os passos dos músculos do seu sorriso,
e as saídas estão justapostas a soluções, ainda
que sejam, claro está, coisas distintas}
voz alta (de novo e retoma a voz alta anterior, daí
a vírgula depois dos dois pontos) : , um poema
sobre a escuridão parda na vertigem dos anos,
um poema autenticado porque tu tens o dom de ter um nome,
um poema cuja tristeza entreversos
está {envolta em tristezura contra mundum.}
e então estará cada vez mais escuro
porque o avançar dos anos, sobre o
medo inadequado, é fundo e às vezes profundo,
e haverá sempre {um lugar instantâneo em cada destino
porque há uma consciência intrínseca e mínima
nos lugares que chegam
e uma terra onde plantar o rosto.}
Publicado por Texto-Al at 14.10.09 2 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Amor a Longa Distância - um poema de Sylvia Beirute
AMOR A LONGA DISTÂNCIA
{a alguém longe}
os contornos da lágrima {são} de água doce
e neles talvez tenham ficado vestígios de outros vestígios
{e a ideia, vã e estática, de que para amar
é necessária a perfeita capacidade de síntese}
e a solenidade geométrica de uma abstracção ficcional.
{ } haverá ainda nos contornos rígidos da lágrima
uma filosofia que gira com a luz profunda da compreensão
{formando} um ligeiro decote de sombra.
{um revólver espontâneo mas um tiro pouco lesto:
isto do amor a longa distância.}
Sylvia Beirute
inédito
Publicado por Texto-Al at 13.10.09 2 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Beirute - Um poema de Sylvia Beirute
BEIRUTE
apenas verde. {há um leve azul escuro}. vermelho.
estilhaços de cor. {perspectiva}. perspectivadamente:
apenas uma manhã solitária em beirute. solitariamente
{quatro fragmentos de um caminho desfeito
despem as hastes do vento velho.}
o rosto é formado por: {pequenos círculos},
alguém o diz, assim que o outono indeciso
clama nas folhas dobradas { e no vapor longínquo
das nuvens demasiado rugosas { para os pensamentos
que correm nos dias de hoje. / apenas verde,
{um verde autêntico}. apenas vermelho, {estilhaços de}.
inédito
Publicado por Texto-Al at 12.10.09 1 comments
Categorias: poema, sylvia beirute
Um café com Sylvia Beirute
Publicado por Texto-Al at 9.10.09 1 comments
Um poema de Sylvia Beirute - Ars Poetica
ARS POETICA
já não temos de: expor janelas, deitar
a língua de fora, beber o vinho, dividir a morte pelos benefícios
de mundos íntimos impessoais}
chegámos a uma arte nova - {tantas experiências, tantos
fernandos pessoas, al bertos, tantas palavras
que querem dizer outra coisa}
escrevemos apenas o gosto, o oposto semi-assimétrico
do que pensamos}
{e o que pensamos é semi-assimétrico do que sentimos}
se pensamos na metafísica da poesia, escrevemos
que é a sua absoluta não edição e acrescentamos que os
sentimentos mais humanos carecem de saneamento básico.}
se pensamos numa flor arrancada } escrevemos que
sermos conhecidos é premir publicamente o gatilho;}
se pensamos no peso exterior da alma,} escrevemos
as saudades com ligeiros vales } e uns búzios para cima }
e um dilúvio que estanca no caroço
que é afinal um continente
de recordações não interligadas por uma emoção} .
depois deitamos um rugoso manto silenciador,
{na poesia praticamente tudo é silêncio}
esperamos a chuva } e alguém se lembrará de expor janelas,
{forçá-las} deitar a língua de fora {a colheita de saliva},
beber o vinho {sentir o pisar da uva no lagar}.
nesse momento perdemos a carne com a sua privação}
e um poema cresce avulso a partir da planta dos pés}
e atravessa a beira-mar do vulto, perdendo a sua proporção,
a energia fragmentária de uma visão de vida
fiel ao cilício gradual de um tempo
esteticamente passando } semi-ininterrupto de infinitos.
inédito
Publicado por Texto-Al at 9.10.09 0 comments
Categorias: poema, sylvia beirute




















