Correspondência - um poema de Sylvia Beirute

















CORRESPONDÊNCIA

{aos poetas contemporâneos do algarve}

para dizer {intemporal} digo {o infinito do tempo} ,
para dizer que {existe espaço} digo {vazio} ,
para dizer {passado} digo {o esqueleto do presente} ou
uso a sinédoque, estranhamente
mais exacta e rigorosa, {os seus ossos frágeis} ,
para dizer {cegueira} digo {a mera visão interior
com passos de tigre ao escuro} ,
para dizer {sacar verdades} digo {emitir um
certificado de existência poética}
para dizer que {sou} digo que {estou, ou estou por vezes},
para sentir {o anonimato contemporâneo dos outros poetas
que no jardim da alagoa passeiam os cães e fingem
não me ver} faço {assim com os ombros}.
para permanecer preciso de {usar as mãos}
e {estender todo o corpo nos lábios, ou entre sinónimos
e correspondências}.

inédito

Apresentação do livro Tamujal, de Ivo Machado, e considerações sobre o Prémio Literário António Ramos Rosa
























A apresentação de Tamujal, o mais recente poemário de Ivo Machado, integrado na semana dos Açores da Biblioteca Municipal de Faro, correu muito bem. Houve ainda tempo e oportunidade para se falar um pouco dos apoios que são necessários na nossa região de modo a acompanharem a excelência de alguma literatura que por cá se faz. Foi nesse sentido que propus à Directora da Biblioteca a alteração do regulamento do Prémio Literário António Ramos Rosa. Pouco sentido faz atribuir-se, de dois em dois anos, € 5000.00 a um autor já publicado, sendo que muitos poetas passam por enormes dificuldades para conseguirem uma publicação. Como tal, propus que o Prémio fosse atribuído anualmente, alternando-se o âmbito do mesmo: nos anos com número ímpar, este destinar-se-ia a obras inéditas em língua portuguesa, com garantia de publicação com uma editora com que deveria ser feito um protocolo ; nos anos com número par, o Prémio seria entregue nos moldes actuais. O valor de € 5000.00 seria repartido em duas metades, de modo a subsidiar as duas modalidades do Prémio. A proposta mereceu consenso. Veremos na prática.   


Tiago Nené

Um poema de Sylvia Beirute - Premissa de Tempo














PREMISSA DE TEMPO

começo onde acabas, ou onde estás quase a terminar, ou ainda
onde já acabaste mas tens uma palavra a dizer.
começo onde acabas e acabo onde acabas ou numa
das outras hipóteses. } sou exígua e o meu tamanho
varia consoante as tuas premissas de tempo.
neste lugar a respiração é imaginada e assim queimada
pelo sol, o meu corpo assim apaziguado ouve uma
sombra exaustiva e perpétua como o outono caótico
dentro de um sonho infinito. um dia, quando atingirmos
o ponto zero, começaremos de novo a existir, sem que ninguém
comece ou acabe onde o outro comece ou acabe,
e, sobretudo, sem que haja palavras que falem.

inédito

Semana dos Açores na Biblioteca António Ramos Rosa (Faro)





































(clique na imagem para ver em grande formato)

Ilusões Conclusivas - um poema de Sylvia Beirute

















ILUSÕES CONCLUSIVAS

talvez se descubra que aquilo
a que chamo "a miúda da paragem de autocarro, es-
perando o próximo, e que a levará 
do jardim da alagoa  até à praia"  é
afinal a sinédoque de um passado que
presentifica, na alma de outrem, um
sonho que recua. }
não tarda e este objecto complexo
entrará num autocarro
cheio de conclusões, ou melhor, de {ilusões
conclusivas}, e, assim que chegar à praia, fá-lo-á
regressar realizado, volúvel e vazio. }
aí, a sua forma interior, tão escura quanto
a inconsciência miúda de um grito passivo,
assemelhar-se-á, tanto quanto possível e ressalvando
diferenças formais que só à Poesia dizem respeito,
ao seu conteúdo prévio.


inédito

Esclarecimento número um, um poema de Isa Mestre

Pergunto-te:
Quem são eles?
E os teus olhos vidrados, perdidos, às vezes baços.

Algumas vezes falo-te de amor,
Outras de medo.
Perguntaste-me um dia se eram sinónimos,
E eu na minha linguística de desordem não soube que dizer-te.

Escrevo-te para esclarecer-te,
Para esclarecer-me.

Antes de ti, eu pensava que amor era apenas o amor,
A palavra,
O sentido que nos ensinam na escola e que demoramos toda uma vida a entender,
Depois, entendi que o amor eram todas as coisas,
que o amor era perder-me de tudo e encontrar-me apenas em ti,
perder-me do que sou e vir até aqui simplesmente para dizer-te :
Sim, o amor é também o medo.
O amor é sobretudo o medo.

Isa Mestre

Página em Branco - um poema de Sylvia Beirute




















PÁGINA EM BRANCO
{poema-resposta a um autor bloqueado}

saber existir uma página em branco,
e que a mesma já contém poesia,
é absolutamente necessário para se escrever
um poema.

escrever pode ser pura abstenção,
e o ponto supremo de se escrever bem pode ser,
e segundo a minha viciada experiência,
uma abstenção parcial.

{mas cuidado,
muito cuidado com as formigas que passam sobre a folha.}

inédito

Definições - um poema de Sylvia Beirute




















DEFINIÇÕES

{então que é verdade que a definição se esgota  no rosto
que é o seu rasto} e quanto maior o rasto, maior a /probabilidade/
de se esgotar, em maior número as escolhas {e dentro delas
as pessoas,} as pessoas que mudam, que ainda não sabem,
diferenciam, prescindem, imprescindem}. {eu} realmente
gostaria de dizer algo agora, {mas os dias são transfusões de dias},
de plasmar definições e, dentro delas, significados profundos, ousar
escrever as palavras {completidão} e {perfeitude}, tocar
no fulgor abstracto das histórias futuras, das radiações de um
abraço nas repetições tumefactas da espessa mudez,  reconhecer
a transversalidade de todo o tempo. {e então que este princípio
de poema me diz que devo parar aqui, aqui onde um rasto não
começa, onde um significado não acaba, todas as definições estão
ainda encarceradas no seu primeiro infinito, onde uma bruma passa
no exacto momento em que os corpos abrem.}

inédito

Última Chamada

Recordo que hoje vou estar no Pátio de Letras para apresentar o último livro editado em Portugal do poeta espanhol Santiago Aguaded Landero, Sortilégio de Silêncio.

Mais tarde, no dia 4 de Novembro, na Biblioteca António Ramos Rosa, em Faro, apresentarei Tamujal, o último livro do poeta Ivo Machado.

                                                                                                  Tiago Nené

Poema de aquecimento para uma longa noite de prosa - um poema de Sylvia Beirute

















POEMA DE AQUECIMENTO PARA UMA LONGA NOITE DE PROSA

abraças-me e há naquele abraço o alívio de vinte anos sem saber sorrir
isa mestre

{a primeira hipótese é entre duas pessoas, tu e eu, haver um intervalo, e ser esse intervalo a única coisa que nos define, crescerem estradas que não começam, despir-se o tímpano de igualdades, ter-se perdido o efeito inverso do cansaço, sermos nós sem uma raiz.}
{a outra hipótese é instaurarem-me um processo poético, tablado de improvisos, irmos a vénus num ovni, por ser a minha consensualidade um rebanho de qualidades, e na tua perspectiva de poeta ser o céu uma folha de papel branca, a claridade esconder a escuridão, e estabelecer-se uma insaciabilidade do impossível.}


inédito

O Princípio da Distância - um poema de Tiago Nené

















O PRINCÍPIO DA DISTÂNCIA

                                          [a Sylvia Beirute]

poesia é a arte, metafísica, de escavar as palavras
e encontrar outras palavras
e escavar estas palavras e encontrar outras
palavras.
foi assim que escrevi o teu corpo
e escavando as suas palavras encontrei outras
palavras
que diziam ser a outra metade da solidão a esperança
e os nossos corpos
o princípio da distância.

inédito

Um poema de Sylvia Beirute - Passageiro Frequente























PASSAGEIRO FREQUENTE

a vida precisa de justificar o sonho belo }
os sentidos são transmissíveis,
e apenas na simulação directa a estética é exterior. 
quem quiser dobrar ao meio uma subtileza }
encontra uma sombra muito rígida,
um passageiro frequente no infinito de um nome }
regando esta abundância tão rente
com o caule desde a dialéctica do poema sem seios
ao instinto que respira pela aura dos pulmões,
{respiração que blinda a aura da alma azul-índigo}

inédito

Sortilégio de Silêncio, novo livro de Santiago Landero, apresentado em Faro


Um poema de Sylvia Beirute - Paisagem

















PAISAGEM


Escuto sem margens a melodia do rio. /
Na noite existe um canto líquido /
sementes que ardem nas línguas dos rouxinóis.

Catarina Nunes de Almeida


paisagem representada subjectivamente com enxerto 
de desabrochamentos mutuamente interceptados:
a repercussão deste abraço não é tão intensa como
espremer uma laranja até à última gota, assim como
um beijo apenas despede um rosto de uma boca
ou uma boca de outra boca.
      {bebo as cápsulas do tempo, o perfume está morno,
e estas palavras nascem da rouquidão do silêncio,
os olhos chicoteiam paisagens pálidas
e aqui discutimos como confiar no instinto
do que acabámos de inventar.
      voz baixa: {e espreitando pela mentira vejo a verdade: 
os lugares  existem repetidamente 
e consultam os mapas actualizados antes de acontecerem 
uma e outra vez.}
      voz alta (de novo, como principiou o poema):
{os poemas não são livres enquanto as suas palavras
o não forem.}
      FALTAREI AO POEMA
A INDIVIDUALIDADE NUNCA É AUTÓNOMA
e tu podes, na mesma, escrever um poema, (é claro),
      voz baixa de novo: {cuidado porque há mulheres dentro 
de acepções ambíguas, e o sítio justo do significado 
está-lhes na coxas escaladas 
com os passos dos músculos do seu sorriso,
e as saídas estão justapostas a soluções, ainda
que sejam, claro está, coisas distintas}
      voz alta (de novo e retoma a voz alta anterior, daí
a vírgula depois dos dois pontos) : , um poema
sobre a escuridão parda na vertigem dos anos,
um poema autenticado porque tu tens o dom de ter um nome,
um poema cuja tristeza entreversos
está {envolta em tristezura contra mundum.}
e então estará cada vez mais escuro
porque o avançar dos anos, sobre o
medo inadequado, é fundo e às vezes profundo,
e haverá sempre {um lugar instantâneo em cada destino
porque há uma consciência intrínseca e mínima
nos lugares que chegam
e uma terra onde plantar o rosto.}


inédito

Amor a Longa Distância - um poema de Sylvia Beirute


















 AMOR A LONGA DISTÂNCIA

                                     {a alguém longe}

os contornos da lágrima {são} de água doce
e neles talvez tenham ficado vestígios de outros vestígios
{e a ideia, vã e estática, de que para amar
é necessária a perfeita capacidade de síntese}
e a solenidade geométrica de uma abstracção ficcional.
{      } haverá ainda nos contornos rígidos da lágrima
uma filosofia que gira com a luz profunda da compreensão
{formando} um ligeiro decote de sombra.

{um revólver espontâneo mas um tiro pouco lesto:
isto do amor a longa distância.}

Sylvia Beirute
inédito

Beirute - Um poema de Sylvia Beirute




















BEIRUTE


levou tempo a desfazer-se das canções / que falavam do azul,
dos amores seus que tudo viam azul, do azul das moscas,
do sabão, dos lençóis às bolinhas e de cortesia,
de toda a poesia que sugere o azul.
 
Carmen Camacho

apenas verde. {há um leve azul escuro}. vermelho.
estilhaços de cor. {perspectiva}. perspectivadamente:
apenas uma manhã solitária em beirute. solitariamente
{quatro fragmentos de um caminho desfeito
despem as hastes do vento velho.}

o rosto é formado por: {pequenos círculos},
alguém o diz, assim que o outono indeciso
clama nas folhas dobradas { e no vapor longínquo
das nuvens demasiado rugosas { para os pensamentos
que correm nos dias de hoje. / apenas verde,
{um verde autêntico}. apenas vermelho, {estilhaços de}.

inédito

Um café com Sylvia Beirute













Hoje encontrei Sylvia Beirute no Pátio de Letras. De seguida bebemos um cafezinho e seguimos para o recém-reaberto Snack-Bar Garrett. Quando lhe demonstrei toda a admiração pela sua escrita e por aquilo que me faz sentir, ela respondeu-me com uma pergunta: "Tiago, escrever bem e com relevância é como esculpir, esculpir sem pedra. Não concordas?". 

[Tiago Nené]

Um poema de Sylvia Beirute - Ars Poetica




















ARS POETICA

já não temos de: expor janelas, deitar
a língua de fora, beber o vinho, dividir a morte pelos benefícios
de mundos íntimos impessoais}
chegámos a uma arte nova - {tantas experiências, tantos
fernandos pessoas, al bertos, tantas palavras
que querem dizer outra coisa}
escrevemos apenas o gosto, o oposto semi-assimétrico
do que pensamos}
{e o que pensamos é semi-assimétrico do que sentimos}
se pensamos na metafísica da poesia, escrevemos
que é a sua absoluta não edição e acrescentamos que os 
sentimentos mais humanos carecem de saneamento básico.}
se pensamos numa flor arrancada } escrevemos que
sermos conhecidos é premir publicamente o gatilho;}
se pensamos no peso exterior da alma,} escrevemos
as saudades com ligeiros vales } e uns búzios para cima }
e um dilúvio que estanca no caroço
que é afinal um continente
de recordações não interligadas por uma emoção} .
depois deitamos um rugoso manto silenciador,
{na poesia praticamente tudo é silêncio}
esperamos a chuva } e alguém se lembrará de expor janelas,
{forçá-las} deitar a língua de fora {a colheita de saliva},
beber o vinho {sentir o pisar da uva no lagar}.
nesse momento perdemos a carne com a sua privação}
e um poema cresce avulso a partir da planta dos pés}
e atravessa a beira-mar do vulto, perdendo a sua proporção,
a energia fragmentária de uma visão de vida
fiel ao cilício gradual de um tempo
esteticamente passando } semi-ininterrupto de infinitos.

inédito

3-11 Porter - Surround me with your love

Um poema de Sylvia Beirute - O indirecto sentido de prestidigitação



















O INDIRECTO SENTIDO DE PRESTIDIGITAÇÃO

todo o dia chove porque o todo o dia vive,
todo o esforço sofre porque vence }
vencer é uma forma futura de frustração
e talvez eu { hoje } me desate toda
até ao indirecto sentido de prestidigitação.
{                                                           }
na sala de espera dos olhos baixos
acontece {um inverno estóico} e um deva-
neio tarda em atingir-{me} o organismo fundamental.
todo o dia chove e diz que a história sempre
nos livrou do presente que erra de bibe azul.
{                                                             }
quando envaidecem {as palavras fecham}
e com elas o significado por extenso de parte
de um ideal sub-humano:
perda, esquecimento, anonimato fortuito.

inédito

Sobre a sessão de poesia Texto}al de Sexta







Foi muito interessante a sessão de poesia no Draculea, organizada por este bar e pelo Texto}al. Cedo a organização deu lugar à improvisação e os autores, eu,  Tiago Nené, a Isa Mestre e o Adriano Narciso viram-se à volta de uma mesa central (com a guitarra de José Banza), à luz de velas, copos na mão (caipirinhas, martinis e algumas bebidas não alcoólicas), recitando poemas a duas ou três vozes, com sobreposição de versos, e saídas do texto original. A sala esteve composta, apesar de não inicialmente, houve alguma resistência por parte do público, até percebermos que dedicar alguns poemas a pessoas que o integravam seria uma estratégia interessante para as conquistarmos. Gostei muito da experiência e será repetida muito em breve, espero.

Na sessão foram lidos poemas de: Adriano Narciso, Duarte Temtem, Isa Mestre, Tiago Nené, Sylvia Beirute e Joana Dias Antunes.

O texto}al agradece ao Valter Ego e à Úrsula, do Draculea Bar, o convite que nos foi endereçado.

[tn]

Chuva de Verão.


Cai uma combativa
Chuva, num verão
De morte nos céus
E de sombras nuas
Nas ruas.

Estão mudas.
Vestem a razão
Das horas,
Perdendo-se
Na sua ausência.

Corro pelos
Labirintos cilíndricos
Das tabernas,
Rolando na incerteza
De um palpite,
Ou vários.
E com o aroma
Do vinho ou, do
Que a minha ignorância
Não me deixa dizer que seja,
Camuflo o cheiro
Que de ti ainda
Me resta.

Vagueio como
Um cretino sem nome,
Queimando vingança
Nas palavras de quem
As diz como quero ouvi-las.
Em análogos encontros
Onde estranhos se cruzam
Inconscientes de si mesmos
E partilham a sua única crença:
- A vida não presta.

Bebo,
Saio,
Entro,
Bebo
E volto a sair.

E toda a beleza das coisas
Se encontra nas sábias mãos
Dos velhos que jogam
Cartas como se o mundo
Acabasse amanhã.
Os seus cabelos brancos
São afinal mais claros
Do que a minha alma
E, num dia vestido
De um cinzento que se mexe,
Em quem mais poderia acreditar?...


Noite de Poesia - Draculea Bar


menarca



entre as ancas de um livro,
cem mãos sem dedos escrevem a vermelho mênstruo
a venérea ausência de cristo.
a ferida exacta.
o acto de rasgar,
tão perfeitamente desesperado,
é o sustento de um guião vascular para os lúcidos.
a criação suicida.


há quem não entenda as vocações terminais.
as ruínas fundadoras de homens.
a beleza incompleta,
em procissão de vinho pelas pernas,
invade-me a boca como forma de (a)deus.


só então me venho,
ali,
no cúmulo dos tecidos transactos
e estradas tolhidas,
celebrando a ilegal distribuição de vivos
por talvegues maternos atados ao parto
(para nem sempre respirar).


há quem não entenda as vocações terminais.
como infectar de amor a cadência líquida
da tua ascensão a árvore.


(imagem: pintura de Hieronymus Bosch)

Voz - um poema de Isa Mestre

Dói-me a tua ausência.
Queria dizer-te que quando o Outono acabar, saberei já como amar-te,
Saberei já como abraçar-te e dizer-te que tive saudades do teu sorriso,
Saberei já como apertar-te contra o peito e olhar-te sem demora.

Porém, hoje, não poderia escrever-te para que voltasses,
Os poetas não escrevem,
Sussurram.
Os poetas não suplicam,
Amam.
Os poetas nunca partem, e talvez nunca deixem partir.
Os poetas não são poetas, na verdade.
São vozes.

E é com a tua voz que te escrevo. A tua voz que grita dentro de mim.
(-Fica. Sinto-me só).
E eu fico, sentado a escrever. Então, ficamos os dois.
Sentados a escrever.

Isa Mestre

Infrarrealismo - um poema de Sylvia Beirute













INFRARREALISMO

{esta amnésia representa / a prisão perpétua de um momento}
Tiago Nené

vou ao café somente para recordar o amor},
[neste momento despossuo
vanguardas ou retaguardas]
um amor infrarrealista, sem ortografia, um
amor até à última das consequências,
um amor que desconhece
que o que importa de facto
não é a última das consequências
mas a última das causas}
com as escoriações dos seus ecos
ainda na voz } os nervos das mãos
museificados sobre a boca inaugurada
de um cadáver estreante, peço trémula, de-
vagar e docemente:
uma água e um café, um café muito curto.

Sylvia Beirute
inédito

Spaciba - um poema da poetisa algarvia Sylvia Beirute














SPACIBA

plantar de novo } o que ainda cresce,
nada divido } que tenha fome.
o que tem fome é auto-curativo,
o que é auto-curativo } cresce.
o que cresce é a divisão do tempo
pelo espaço } crescer em espaço
é uma boa ideia } crescer em tempo
é morrer }. plantar de novo
o que ainda cresce } é preferir um início
a um outro, hipotético, ameno, pouco
ameno, violento, auspicioso, de fidúcia }.
alguém me pisa as estrelas temporárias }
e nas algibeiras os dedos
parecem um veleiro sem segurança }.
planto-me de novo e a esta poesia
que urra sem olhos }. nada divido } não divido
a primavera como um todo
por onze jardins imaginários }.
vivo, afinal de contas vivo }. e uma navalha
corta fatias de sono e envia para as estrelas }.
o todo-sono assemelha-se a uma barra
de sésamo e mel rica em fibras,
cada bocado cortado corresponde a um sonho,
e as estrelas são os seus dormitórios póstumos.
depois morro por ser poético e adormece o dia }
e spaciba, spaciba, alguém diz,
sem noção de que {para continuar a crescer
sempre é preciso plantar-se de novo.}

Sylvia Beirute
inédito


fotografia de Miguel Apolinário

Excerto da vida de um poeta 'standard', aquele que se farta de sofrer quando escreve alguma coisa

"Leio um poema e quero parar de escrever. É tudo uma grande farsa. É tudo um mito sofrer como se sofre num poema, num coração. Fôssemos todos santos e continuava a ler poemas. Mas não. Poemas já não leio. E depois estão bem escritos!

É como se eu mentisse de uma forma bonita/ e o lesado aplaudisse/chocado, lacrimejante,/ depois de me ouvir. Há na poesia um tanto de rebeldia/ por só se usar parte de uma página/ e um muito de egocentrismo/ por se pensar que os outros se preocupam com o estado do nosso coração,/pelos nossos sentimentos.

Por isso desisti de ser poeta. Desisti de falar de ti. Ou da outra. Ou de alguém que não conheço sequer. Desisti de estar a pensar em rimas internas, em aliterações que acentuem uma ideia. Desisti do poema. Já não quero ser poeta. Já não quero acordar e ter de apontar num bloco sujo do dia-a-dia o meu primeiro pensamento. De me deitar e apontar uma última frase que inicie uma estrofe. Desisti disso tudo, desse nada que é a poesia."


A poesia-cebola está démodé


Adriano Narciso

Acto II - um poema de Sylvia Beirute














ACTO II 

{ao Adriano Narciso porque} 
Quando morrem pessoas / as ervas crepusculares nascem
da sua memória, / descem até nós,
roubam-nos água dos olhos

só depois do corpo todos os actos são livres}
alguns eternamente livres}
outros sempre o foram} alguns não inteiramente}
outros, nascituros, nascem}
alguns, concepturos, regressam}

talvez um outro corpo nasça através
da prisão-corpórea do acto}
talvez um acto iniciado e não consumado {e depois exaurido}
ajude à continuação de um início paralelo.

mas talvez só o último acto seja livre e ainda caminhe magro
num caminho infinito e itinerante} depois da
respiração mordida } da hélice do coração -
{depois do corpo
como todos os actos intensamente livres.}

inédito

fotografia de Paulo César

Pretérito Imperfeito

Lembras-me as velas
que ardem e
deixam cera de licor na pele:
um mar rúbeo de
tochas submersas como
sereias

Lembro-me
das vezes em que éramos
génese de romance de cordel
e os dias eram peça de teatro sem actos
E lembro-me
de o amor ser dogma
e o sol a encher e vazar
como onda ininterrupta entre duas praias.

Agora há só um quarto azul-baço
uma cadeira caída, cama desfeita.
as palavras são
perenes monólogos néscios
sem a metafísica das palavras que jurámos

E o poema sem sereias é apenas matéria.


Adriano Narciso